Saúde no Socioeducativosocioeducativo.bsb.br, página inicial

PrEP, PEP e testagem para adolescentes a partir de 15 anos

O que o adolescente pode acessar sem autorização de responsável, o que fazer diante de exposição de risco nas últimas 72 horas e como transformar a testagem na admissão em cuidado que continua.

Atualizado em setembro de 2026Conferido emLeitura de 10 minConteúdo de apoioGlossário de siglas

Três ferramentas, três janelas de tempo

  • Testagem rápida (HIV, sífilis, hepatites B e C): a qualquer momento; resultado em minutos; ofertada a todos na admissão, com registro de aceite ou recusa.
  • PEP (profilaxia pós-exposição): até 72 horas após a exposição — quanto antes, melhor; 28 dias de antirretroviral.
  • PrEP (profilaxia pré-exposição): uso contínuo (ou sob demanda, conforme o protocolo) para quem tem exposição frequente ao HIV.

O que o adolescente pode acessar por conta própria

O PCDT de PrEP de 2025 permite o acesso a partir de 15 anos, sem necessidade de autorização de pais ou responsáveis, com avaliação de vulnerabilidade e capacidade de adesão. O adolescente também pode ser testado e tratado com confidencialidade, e o autoteste de HIV está disponível na rede. A recusa em envolver a família não é motivo para negar o cuidado — é motivo para garantir sigilo e vínculo.

Na admissão (NAI ou unidade socioeducativa)

  1. Teste rápido para todos, com registro de aceite, recusa ou impossibilidade técnica.
  2. Sífilis reagente: tratar na hora com penicilina benzatina, notificar no SINAN e comunicar as parcerias. A sífilis adquirida segue em alta entre adolescentes e adultos jovens no país (boletins epidemiológicos do Ministério da Saúde) — cada resultado reagente na admissão é uma oportunidade de tratamento imediato.
  3. Exposição de risco nas últimas 72 horas (relação desprotegida, violência sexual, compartilhamento de material de uso): encaminhamento imediato para PEP na referência de urgência, com o horário da exposição registrado.
  4. Exposição frequente: avaliar a indicação de PrEP e encaminhar nominalmente ao serviço de referência em HIV/IST — com o adolescente sabendo que pode ir sozinho.
  5. Registrar o desfecho — teste, tratamento, encaminhamento e retorno — para que o próximo serviço não recomece do zero.

Violência sexual: o que muda na profilaxia

Aqui a conduta não é a mesma do adulto, e a diferença não é a idade — é o peso. Confira o peso antes de prescrever.

O relógio: três prazos diferentes

O relógio: três prazos diferentes
Medida Prazo
PEP para HIV até 72 horas; depois disso não há benefício. Duração de 28 dias
Imunoglobulina anti-hepatite B (IGHAHB) até 14 dias, de preferência nas primeiras 24 horas
Contracepção de emergência até 5 dias, e quanto antes, mais eficaz

Confundir os três faz perder o primeiro. A regra prática: PEP e contracepção de emergência primeiro, tudo o mais em seguida.

HIV — o corte é 35 kg

  • A partir de 35 kg: tenofovir + lamivudina + dolutegravir 50 mg (o esquema adulto).
  • Abaixo de 35 kg: zidovudina + lamivudina + dolutegravir 50 mg — o tenofovir só é indicado a partir de 35 kg, e o dolutegravir 50 mg exige pelo menos 20 kg.
  • O abacavir é contraindicado como PEP em população pediátrica: não há tempo de testar HLA-B*5701 antes das 72 horas.
  • A ausência de infectologista não justifica adiar a prescrição.

Hepatite B — e por que isso nos alcança em cheio

Vacina: iniciar ou completar o esquema de três doses (0, 1 e 6 meses) em quem não tem comprovação — sem reiniciar o que já foi feito.

A imunoglobulina é o ponto que costuma escapar. Ela não é rotina: entra quando a pessoa é suscetível e o agressor é HBsAg positivo ou pertence a grupo de alto risco. E o protocolo lista, entre esses grupos, pessoas privadas de liberdade — o que torna a hipótese frequente no nosso contexto, não excepcional.

Dose: 0,06 mL/kg, intramuscular, dose única, máximo de 5 mL, em membro diferente do que recebeu a vacina. Obtém-se nos CRIE, não na sala de vacina comum — e isso precisa estar resolvido antes de precisar.

IST não virais — o corte é 45 kg

IST não virais — o corte é 45 kg
IST Acima de 45 kg Abaixo de 45 kg
Sífilis benzilpenicilina benzatina 2,4 milhões UI, IM, dose única 50.000 UI/kg, IM, dose única
Gonorreia ceftriaxona 500 mg, IM, dose única ceftriaxona 125 mg, IM, dose única
Clamídia azitromicina 1 g, VO, dose única azitromicina 20 mg/kg, VO, dose única
Tricomoníase metronidazol 2 g, VO, dose única 15 mg/kg/dia, em 3 tomadas, por 7 dias

Atenção a duas armadilhas. A primeira: a ceftriaxona é 500 mg, não 250 — a Norma Técnica de violência sexual do Ministério, de 2010, ainda traz 250 mg e está desatualizada nesse ponto; vale para o fluxo de acolhimento, não para a dose. A segunda: o metronidazol pode ser adiado quando houver prescrição de PEP ou de contracepção de emergência, por intolerância gástrica — diferentemente da PEP, a profilaxia das IST não virais admite ser postergada.

A profilaxia das IST está indicada independentemente da presença ou da gravidade de lesões físicas.

Contracepção de emergência

Levonorgestrel 1,5 mg, via oral, dose única, até cinco dias. Não é método de rotina: o uso repetido reduz a eficácia.

HPV

Vítimas de violência sexual de 9 a 45 anos são grupo prioritário para a vacina. O esquema difere da rotina — de 9 a 14 anos são 2 doses; de 15 a 45, 3 doses. O formulário de verificação vacinal aplica essa regra.

Duas obrigações que não são clínicas

  1. Comunicar o Conselho Tutelar imediatamente — por telefone, pessoalmente ou com uma via da ficha de notificação. Não depende de boletim de ocorrência, que não é exigível para o atendimento em saúde.
  2. Atender sem exigir autorização de responsável. O acesso a serviços, orientações e consultas é garantido ao adolescente com privacidade e sigilo, salvo internação ou risco de vida — é o ECA, e vale mesmo quando o adolescente está sob medida socioeducativa.

O registro da revelação e o roteiro de acionamento estão no formulário de registro de violência; o detalhamento da rede, no guia de notificação de violências.

O que não fazer

Não condicionar o teste ao consentimento de terceiros; não adiar o tratamento da sífilis para “o serviço de referência”; não registrar o resultado apenas no papel da unidade — o dado precisa chegar ao prontuário oficial e à rede.

Fontes

  • BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) de risco à infecção pelo HIV (2025).
  • BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Profilaxia Pós-Exposição (PEP) de risco à infecção pelo HIV, IST e Hepatites Virais. 1. ed., 2024. Acesso em 8 de setembro de 2026.
  • BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Atenção Integral às Pessoas com IST, 2022.
  • BRASIL. Ministério da Saúde. Manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais (CRIE). 6. ed., 2023.
  • BRASIL. Ministério da Saúde. Nota Técnica nº 63/2023-CGICI/DPNI/SVSA/MS (HPV para vítimas de violência sexual).

Aviso: conteúdo de apoio, de iniciativa pessoal, sem caráter oficial. Não substitui normas, notas técnicas e procedimentos oficiais vigentes, que prevalecem em caso de divergência.